
Destaque da 61ª edição da Bienal de Veneza, que será aberta ao público neste sábado, dia 9, o artista brasileiro Ayrson Heráclito apresenta, como grande instalação no Arsenale, sua série “Juntós”, um mergulho profundo na cosmopercepção afro-brasileira.
No Candomblé, o termo “juntó” descreve a união sagrada entre dois orixás, um principal e outro complementar que, juntos, moldam a personalidade e o destino de cada indivíduo. É essa “combinação de forças” que serve como espinha dorsal da série de Heráclito.
A instalação, que ocupa um dos espaços da mostra principal In Minor Keys, com curadoria de Koyo Kouh (in memoriam), reúne desenhos e esculturas em aço inoxidável que reimaginam as insígnias e ferramentas sagradas do panteão africano. O projeto se configura como uma exploração visual das mais de 200 combinações possíveis entre os 16 orixás principais cultuados no Brasil, cada uma acompanhada por poemas oriki que invocam as energias presentes nessas composições.
A série também se apresenta como uma reverência a Mestre Didi, figura pioneira na introdução de perspectivas afrocentradas na arte contemporânea brasileira. Por meio de seu trabalho, Heráclito atua em um “entre-lugar” fértil, onde criação estética e repertório espiritual se fundem, em diálogo com perspectivas afrofuturistas.
“Esta é a primeira vez que apresento o conjunto completo desse sistema complexo”, afirma o artista. “É uma forma de compreender o mundo e as pessoas a partir dessa concepção que herdamos e transformamos na América, no contexto da diáspora africana.”
A 61ª Exposição Internacional de Arte da La Biennale di Venezia acontece de 9 de maio a 22 de novembro de 2026, nos espaços dos Giardini e Arsenale, e em diversos locais pela cidade de Veneza.
Para mais informações, visite: www.labiennale.org
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Ayrson Heráclito (n.1968) é artista visual, curador e professor, cujo trabalho se concentra nas matrizes culturais afro-brasileiras e em suas conexões com a África e a diáspora africana nas Américas. Sua prática multidisciplinar abrange instalação, performance, fotografia e vídeo, mobilizando a história da arte para articular uma compreensão contemporânea da dimensão espiritual na arte, ancorada na ancestralidade e no invisível.
Participou de importantes exposições e bienais internacionais, incluindo a 35ª Bienal de São Paulo (2023), a 57ª Bienal de Veneza (2017), a Biennale Architettura (2023) e a Bienal de Havana (2025). Sua exposição individual mais recente, Oríkì Ìwòran (2025), foi realizada na Portas Vilaseca, no Rio de Janeiro.
Suas obras integram relevantes coleções públicas e privadas em todo o mundo, incluindo grandes museus nos Estados Unidos, na Europa, na África e no Brasil.
É doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É também Ogã Sojatin na tradição Jeje Mahi do Candomblé, em Salvador, onde sua prática espiritual informa sua pesquisa artística.












